Aquarela VivaBack
30-9-2012
Texto baseado numa experiência vivida na Riviera Maya, Playa del Carmen, em 21 de Fevereiro de 2008




6:30

A maré subia devagar, seguindo o mesmo ritual. Uma após outra, as ondas invadiam serenamente a areia seca deixada pela vazante.

O local e o momento impunham um silêncio apenas quebrado pelo voo das gaivotas, que entre si discutiam o melhor local para, em voo picado, pescarem a refeição matinal.

No lado direito do areal distinguia-se a custo um vulto caminhando à beira mar. Depois outro, e ainda um terceiro. Estava prestes a acontecer.

O horizonte, até então vestido de breu começava a sua metamorfose, onde o cenário escuro dava agora lugar a uma palete de tons azulados.

Quase de repente, o palco preparava-se para o espectáculo que ia começar. Do fundo azulado, emergiam agora tons laranja, que envergonhadamente pareciam anunciar o primeiro ato. Indiferentes a estas pancadas de Molière, as ondas continuavam a sua rotina, e as gaivotas a sua faina.

O estalido de uma rede lançada à água desviou o meu pensamento. Com maestria ancestral, aquele pescador dominava a sua arte. No minuto seguinte, descarregava para um balde o que seria a refeição familiar desse dia. Dois lançamentos se seguiram e percebi pelo sorriso que me presenteou que tinha cumprido com sucesso a sua missão.

Retribuí o aceno, e, à medida que ele se afastava não pude deixar de pensar se os peixes que ainda saltavam naquele balde, seriam os mesmos que horas antes eu tinha alegremente alimentado com dois pães que para esse efeito tinha religiosamente guardados no bolso.

Avistei-os ao longe. Já conhecidos e também cúmplices desta hora de fortuna, os cinco pelicanos voavam sempre na mesma formação geométrica e exemplar. Indiferentes à minha presença, seguiram o seu percurso habitual, num bater de asas ritmado e enérgico. Também para eles começava uma nova jornada.

À medida que o tom laranja do céu se ia impondo, os vultos deixavam de o ser, e a plateia tomava forma.

Fixei-me num deles, e a sua forma física deixava adivinhar que a corrida matinal fazia parte do seu quotidiano. Sentou-se na areia, e mesmo ao longe percebi que o seu olhar se concentrava no infinito. Assim como eu, aguardava a hora mágica.

Em Fevereiro, aquela faixa da costa Mexicana brindava os seus visitantes com uma temperatura amena, em que a brisa de leste despertava ainda mais os sentidos, tornando cada madrugada em momentos plenos de vida, alimento para o espírito e bálsamo para a alma.

6:45

Se há momentos difíceis de descrever, este é de certeza um deles.

Lá estava ele, um parto maravilhoso da natureza e arauto de um novo dia. Rompendo a névoa que teimosamente abraçava o horizonte, começou a sua escalada. Os minutos seguintes cortam a respiração, relegam para segundo plano a sinfonia das ondas e as próprias gaivotas se quedam na areia, para leste viradas em sinal de respeito.

O seu tom laranja, carregado de vida e de esperança irrompe enfim entre as nuvens. Bola de fogo, diriam alguns, ou fonte da vida, como já ouvi também. nascer do Sol, hora mágica, abençoado sejas!




6:55

Na mesa improvisada, o termo de café e dois copos vazios. O brinde estava feito, e permaneciam imóveis, sorvendo avidamente aquele momento. De olhos nos olhos e mãos dadas com vigor, numa ternura do tamanho do Sol que acabavam de ver nascer.

Do alto das suas mais que sete décadas de idade, emanavam paz interior e uma cumplicidade que se adivinhava bem enraizada. O percurso deste amor nunca o virei a saber. Paixão de infância ou relação posterior. mas que interessa isso? Ali estavam, de faces enrugadas e felizes, com o ar vitorioso de quem cortou mais uma meta.

7:10

O Sol já ia alto, e não resisti a voltar-me para trás. A toalha estava agora debaixo do braço e a mochila ao ombro. De pé, selaram aquela etapa com um beijo, seguido de um abraço feito promessa para um regresso no dia seguinte.

Aquele momento ficará para sempre gravado no meu coração. Uma tela maravilhosa, em tons de amor e fruto de pinceladas de carinho. Aquele casal de idosos era uma aquarela viva, cujas cores permaneciam intactas, não se esbatendo, mas renovando-se de uma forma mística e duradoura.

Felizes, num passo lento mas de esperança, seguiram o seu caminho.

Sequei a minha lágrima, e segui o meu...




Aguarela Viva ( pdf )

 
 
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